Pessoal

Da intimidade

 O professor e seu terno entraram sisudos na sonolenta aula de direito. A rotina era implacável e já havia transformado a sala de aula em mais um tropeço no meio do caminho, como tantos outros do dia a dia.

Ele estava lá, mas não estava. Mas os alunos também estavam lá, sem estar. Ele estava no final de semana, pensando em dormir até tarde, em que pese precisar revisar algumas petições a serem protocoladas na segunda seguinte sob pena de perder o prazo – o tempo, sempre implacável.

Os alunos, bom, nós estávamos metidos em memes no whatsapp e polêmicas em grupos do facebook. Já eram nove horas da noite e o devido processo legal estava indevidamente muito chato. Outubro trouxe o calor e, com ele, as aleluias que pinicavam a quase calvície do mestre, dando uma bela aula de distração aos alunos.

 Existia um distânciamento entre eles muito além de alguns passos em direção ao tablado. Era uma distância estranha. Não se viam como pessoas. O professor era professor, e os alunos éramos alunos. Esqueciam-se: o professor já foi também aluno, pensou na peruada e se distraiu com aleluias. Quem sabe, em outubros distantes, até caiu no meio-fio fantasiado e com bafo de cerveja. Imagina?

Lá na frente, sisudo e de terno, era difícil o exercício da alteridade. Aos olhos da plateia ele era o cara chato, com voz sonolenta, passando calor e querendo ir para casa. Falava mandarim, gesticulando – às vezes – para tentar se fazer entender. Era professor, mas de direito. Sisudo, portanto.

 

Mas ele, provavelmente, devia ser a calça de moletom no final de semana, o churrasco com cervejinha e amigos no domingo, o beijo e o abraço nas pessoas amadas. Devia ser, também, a preguicinha ao acordar cedo, a gastrite pelo excesso de café, o cafuné no bichinho de estimação, a troca de piadas e memes no whatsapp (ainda que ele não saiba o que seja isso). Em algum instante longe do terno, ele devia ser…

As aleluias me deixaram criativa, e pude nele enxergar a mim mesma.

Feliz dia do professor (: