Pessoal

Vamos falar sobre câncer?

No final de agosto de 2015 meu namorado descobriu que possuía linfoma de hodgkin, uma espécie de câncer no sistema linfático. E é sobre ele – o câncer – que eu vou falar hoje.

Não posso falar com propriedade como é ser um paciente oncológico, mas posso falar da perspectiva de alguém íntimo que tem acompanhado o processo de descoberta da doença e tratamento.

(Senta que lá vem textão, leia com paciência)

Câncer não é uma sentença de morte

Não há dúvida de que se trata de uma doença grave, com um tratamento sofrido e, por vezes, longo. Mas começo esse texto dizendo que, por mais difícil e dolorido que seja enfrentá-lo, o câncer não é uma sentença de morte. Sim, isso mesmo. Não é.

Atualmente vários tipos de câncer contam com diversos tipos de tratamentos (cirúrgicos e medicamentosos), além disso há campanhas de conscientização das pessoas sobre a importância de realizar exames periodicamente e não deixar sintomas estranhos passarem batido – é o caso do outubro rosa pela conscientização a respeito do câncer de mama, e o novembro azul, pelo câncer de próstata. As campanhas são aliadas muito fortes do tratamento porque quanto mais cedo se descobre a doença mais fácil será tratá-la.

É claro que ficamos sem chão com a notícia, mas, após conhecer mais pacientes e familiares nessa luta, tive contato com muitos relatos de remissão (quando as células cancerígenas não são mais perceptíveis nos exames) que encheram a mim e a meu namorado com um montão de sentimentos bons. Quando se está ao lado de pessoas positivas, a energia é a melhor possível! E essa energia é fundamental no processo de cura. Pode ser clichê, mas acredite, confie, a cura existe 🙂

O diagnóstico

Quando se tem um inchaço debaixo do braço ou no pescoço (regiões nas quais existem linfonodos), tosse seca constante, um pouco de dor nas costas (especialmente durante a tosse), umas coceiras e feridas na perna, você – e nem seus familiares, namorado/a e conscientizaramigos – imaginam que podem ser sinais de uma doença grave. E aí deixa para lá um tempo, vai vivendo. Depois surgem os suores noturnos (de encharcar os lençóis), e com eles a percepção de que realmente algo não está bem…

Acabei de descrever alguns dos sintomas do meu namorado, sintomas que parecem inocentes individualmente, mas que quando analisados em conjunto descrevem o linfoma. O linfoma, assim como a leucemia, é um câncer sanguíneo e por isso o tratamento não é cirúrgico. Além das quimioterapias, dependendo do caso o paciente pode fazer radioterapia ou até transplante de medula óssea. Aliás, por se tratar de câncer sanguíneo, o médico especialista no assunto é um hematologista, e não um oncologista.

Diferentemente de outras doenças que são precedidas por sinais de perigo evidente (vômitos, febre, dormência em membros etc), o câncer é silencioso, e penso que esse é um dos motivos de ser tão chocante o diagnóstico, afinal, nunca se espera ser o sorteado – mas alguém querido ou nós sempre podemos ser.

Por isso é tão importante fazer um check up anual ou, pelo menos, quando se sentir mal ou sentir que algo não está tão ‘bem’, procurar um médico e relatar tudo o que tem percebido de diferente, ainda que aparentemente não tenha relação com alguma doença. Também é importante não duvidar da palavra da pessoa que diz que está se sentindo mal, não é frescura.

Cansei de médico receitando anti-inflamatório e analgésico para as dores que ele sentia, sem investigar a fundo o inchaço na axila e as dores nas costas que vinham com a tosse. Antes dele ser diagnosticado cheguei a ir com ele no pronto socorro e o médico que o atendeu, após realizar um ultrassom na axila, limitou-se a afirmar que ‘deveria continuar investigando’.

Será que o clínico já não suspeitava que poderia ser câncer? E se suspeitava, porque não informou sobre essa possibilidade, de modo a criar a consciência de que era necessário averiguar com urgência? Eu sei que não se deve criar pânico nos pacientes, mas acho que faltou por parte dos profissionais um pouco de esforço em informar o que podia estar acontecendo – e de fato aconteceu. Enfim, colegas médicos, por favor sempre informem seus pacientes das possibilidades e riscos.

O tratamento

Meu namorado teve que fazer 6 ciclos de quimioterapia, protocolo ABVD. Cada ciclo é composto por duas sessões de aplicação dos medicamentos previstos no protocolo, então no total foram doze sessões quinzenais de quimioterapia.

A quimioterapia pode ser feita diretamente nas veias ou por meio de um cateter. A do meu namorado foi a segunda opção. O cateter é bom porque preserva as veias dos efeitos danosos dos medicamentos, pois eles as destroem aos poucos. Mas, por outro lado, a inserção do cateter é feita por meio de uma cirurgia e, como toda cirurgia, tem riscos: infecção, problemas com anestesia etc. Cabe ao médico e ao paciente decidirem em conjunto.

A quimioterapia é semelhante a uma ‘aplicação de soro’ no hospital, só que ao invés de soro são os medicamentos. Nas primeiras sessões meu namorado ficava bem sonolento por causa do antialérgico que eles davam e também ficava com enjoo, fraqueza e inchaço. As últimas sessões são as mais difíceis porque o medicamento vai se acumulando no corpo, na décima primeira sessão ele passou muito mal, com vômitos 🙁

Uma forma de controlar os efeitos colaterais do tratamento é por meio da nutrição. Alguns alimentos cortam o enjoo, outros ajudam a regular o intestino, melhorar o sono etc. Por isso acompanhamento nutricional é fundamental. As pessoas subestimam demais o impacto dos alimentos no nosso corpo, mas eles são peça chave no tratamento e numa maior qualidade de vida.  Meu namorado costumava comer açaí, tomar suco de graviola (fortalece a imunidade), comer gelatina, tomar sorvete e suco de limão (corta enjoo) e por aí vai.

Bom, logo após a quimioterapia a imunidade fica muito baixa, então evitávamos locais públicos e o contato com pessoas doentes ou que potencialmente poderiam transmitir doenças (é o caso de crianças pequenas, as quais ficam doentes facilmente porque estão na fase de adquirir imunidade). Por conta disso, às vezes ele usava máscara em locais públicos ou procurava atendimento preferencial (as plaquinhas de ‘atendimento preferencial’ não trazem símbolo específico para portadores de doenças graves, mas isso se enquadra de certo modo no grupo dos ‘deficientes’ – no caso a deficiência era imunológica).

Depois de uns quatro dias ele já ficava melhor, e aí passeávamos normalmente, mas respeitando os limites dele e fazendo o que ele sentia segurança.

Ao contrário do que acontece com algumas pessoas, o cabelo dele caiu muito pouco. Ficou um pouco menos ‘cheio’, sabe? Não são todas pessoas que tem queda de cabelo com os medicamentos. Por conta disso, algumas pessoas – principalmente as que filtravam a fila de atendimento preferencial – chegaram a questionar se ele falava a verdade sobre estar com câncer, o que, em alguns momentos, foi bem chato.

Além da questão de preservar a imunidade logo após a quimioterapia, ele não podia tomar sol (pois reage com um dos medicamentos da quimio) e nem comer alimentos crus ou antigos (mais de um dia na geladeira). É uma fase bem delicada porque a pessoa precisa se cuidar ao máximo para não contrair outras doenças ou se machucar, porque essas situações podem prejudicar o prosseguimento do tratamento.

Diferentemente do que estamos acostumados a ver por aí na televisão, o paciente oncológico não necessariamente fica de cama e super fraco. A fragilidade maior é logo após as quimioterapias, radioterapias etc, mas no resto do tempo a pessoa fica bem (ao menos no caso do meu namorado) e pode, se sentir bem para isso, continuar estudando, trabalhando – vi relatos de pessoas que até continuaram fazendo academia (exercícios leves, óbvio).

É importante fazer a pessoa se sentir bem, segura, amada. É uma fase difícil, e é muito difícil para nós que acompanhamos de perto ver a pessoa que a gente ama sofrendo, a gente sofre junto também. Nossos amigos foram essenciais quanto a esse ponto, quantas e quantas vezes não saímos juntos e conversávamos bobeiras, como se nada de ruim existisse no mundo ? <3

A doação de medula óssea

Muito se fala a respeito da importância de doar sangue, mas poucos sabem sobre a doação de medula óssea. É ela quem produz as células do sangue e, por isso, alguns pacientes com câncer sanguíneo (linfomas e leucemias) precisam de transfusão, por vezes ela é única Eu-curto-doar-medula-osseachance de cura. E, se precisam de transfusão, precisam de uma medula compatível, por isso é tão tão importante que mais pessoas se cadastrem como doadoras de medula!

É muito simples, é só ir até um local de doação de sangue (hemocentro) e pedir para fazer o cadastro. Você irá retirar um pouco de sangue, seu sangue será ‘decodificado’ e esse código ficará disponível num banco de dados gigante, do país inteiro. Se encontrarem um paciente compatível com você, entrarão em contato, e só aí é que será feito o transplante.

Por isso é muito importante manter o cadastro atualizado, a qualquer momento da sua vida você pode se chamado para doar e salvar uma vida.

medula
Como funciona a doação de medula? – Imagem extraída do Google Imagens

Mais detalhes sobre o funcionamento do transplante de medula você pode ler aqui: http://www2.inca.gov.br/wps/wcm/connect/orientacoes/site/home/informacoes_sobre_doacao_de_medula_ossea

Bom, por ora é isso… Sei que o texto é longo e agradeço quem leu até o final.
Espero ter passado informações úteis e ajudado quem talvez esteja na mesma situação.

Abraços!!