Pessoal

Coisas boas acontecem (mas precisamos estar atentos)

Ontem de manhã foi um dia que começou difícil. Estava preparando meu café da manhã quando eu e minha mãe discutimos feio. O dia tinha tudo para começar e terminar mal, afinal, todo o relaxamento do despertar foi embora assim que começou a discussão, e a sensação de calma e de que seria um bom dia cedeu espaço para tensão, dor de cabeça e pensamentos negativos. De tanto nervoso nem um gole de água descia direito.

Enfim, passada a tempestade, era hora de ir para o centro. Peguei meu carro, gasolina quase na reserva. Melhor abastecer, né? Não queria mais surpresas ruins.

Eis que paro em um posto de gasolina perto de casa, estava com música alta no carro (tem coisa melhor do que isso para relaxar?) e o frentista sinaliza perguntando se poderia ver o óleo do carro, essas coisas.

Fiz um aceno da cabeça como quem diz ‘não’ e ele insistiu. Apontou para o capô e fez uma cara esquisita. Abaixei o vidro, ‘o que é?’.

– Oi moça, teu carro aqui tá com uma fumacinha e tá quente quente, deve tá faltando água pra resfriá o motor.

– É? Vou aí ver.

Levantou-se o capô, ele me mostra uma espécie de galãozinho branco o qual deveria estar preenchido com o líquido do arrefecimento, responsável por não deixar o motor esquentar demais. Não havia quase nada dentro e saia, bem sutil, uma fumacinha branca do radiador.

– Olha moça, se tá assim sem nada é porque tá precisano completá, esse galãozinho divia tá cheio, se ficá sem mais nada vai esquentá dimais até dá uma pane.

– Nossa, ainda bem que você me avisou… Por que sabe como é, dia a dia tão corrido, tantos problemas para resolver, que eu nem ia me tocar disso. O senhor me ajudou a evitar mais um problema! Obrigada!

Nisso eu já havia saído do carro e estava ao seu lado, observando tudo o que ele me mostrava. Sou naturalmente curiosa, gosto de saber como as coisas funcionam, com meu carro não seria diferente. Pedi, então, que me mostrasse onde era cada coisa, o que tinha que fazer etc.

– Ó, tá veno essa mangueirinha aqui? Ela tá froxa froxa. Não tem líquido nenhum aqui. Vou te mostrar, vamo colocá o líquido aqui e aqui, você qué o da marca do seu carro ou o do posto mesmo doutora?

Doutora. Aquilo me deu um estalo. Apesar de trabalhar com direito, pelo fato do meu chefe não exigir eu quase nunca visto roupa social para ir ao trabalho. Até acho bonito, mas confesso que tenho uma certa aversão pelo excesso de formalidade do mundo jurídico. Roupas sociais, linguagem excessivamente formal e, ao final, quem precisa saber o que tá acontecendo com o próprio processo não entende sozinho nada que os doutores dizem ou escrevem. Enfim, se a situação não me obrigar, não uso roupa social. Mas ontem, excepcionalmente, traí meus princípios e tirei do fundo do armário um vestido azul de renda, bem social – mas só porque estava um calor danado e não tinha nenhum outro vestido mais simples. Para compensar meu desconforto em ser chama de doutora, passei a ser o mais informal possível.

– Quê o senhor me indica?

– Ah, sempre melhor pô o do fabricante né doutora? A doutora não qué saí do sol?

Estava um calor ardente, mas de tão acostumada com o ar condicionado preferi me queimar um pouco. Fugir da rotina nos detalhes às vezes faz um bem…

– Não não, vô ficá qui. Quero aprendê, aí se acontecê de novo já sei o que fazê.

– Ah sim, mas aí se acontecê algo teu pai te ajuda, né.

– Não moço, eu quero aprendê e fazê sozinha. Ele não mora comigo, fica difícil da gente se vê e me ajudá se precisar.

– Ah, tendi… Então vô te ensiná. Vê só…

Daí em diante, com o vocabulário espontâneo e o sotaque tão comum do nordestino trabalhador que veio tentar fazer a vida nessa pauliceia desvairada, ele passou a me explicar atenciosamente o que era e para que servia cada coisa e como eu poderia verificar os líquidos sozinha. Pedia para eu fazer teste com o acelerador – era importante ter certeza se estava vazio por natural ou por vazamento – e deu um sorriso largo quando verificou que tudo estava cértin.

Os calores do sol, do sotaque e da gentileza conseguiram, juntos, reverter aquele mal estar da manhã. Eu fiquei feliz. Fiquei feliz de ouvir o sotaque nordestino, o linguajar simples, os ensinamentos do meu mestre de então. Fiquei feliz dele ter insistido para me mostrar um potencial problema que poderia prejudicar ainda mais meu dia. Fiquei feliz por ele não ter desistido de me mostrar o que estava acontecendo mesmo depois do meu primeiro, automático e tão paulistano ‘não’. Fiquei feliz de ser alvo de gentileza, algo tão raro no caos da rotina paulistana (em São Paulo é mais fácil ser alvo de um carro enquanto se atravessa a faixa de pedestre…).

Ta aí. Saí feliz de um posto de gasolina por causa do frentista, porque ele não desistiu de mim, porque ele me ajudou a evitar um potencial problema ainda maior, porque ele foi gentil todo o tempo. Fui ao centro mais leve. Música alta no último volume e, para acompanhar, um sorriso bobo nos lábios.

Coisas boas acontecem (mas precisamos estar atentos).