Para vida ficar mais leve · Pessoal

Corrigindo a rota

Não faz muito tempo eu conversava com minha psicóloga sobre se todos os relacionamentos de longo prazo tendem ao sofrimento e ao fracasso. Confidenciei a ela que hoje, com as experiências que eu tenho aos vinte e quatro anos de idade, é muito difícil acreditar que vou conseguir formar uma família e ter um relacionamento de longo prazo prazeroso e saudável.

Ela, com quase quarenta anos a mais de vida do que eu, disse que só vou saber se tentar e se me mantiver firme e focada nos meus objetivos, porque a vida é como uma viagem em alto-mar. Às vezes as águas são claras e tranquilas, noutras as tempestades fazem balançar até a mais resistente das embarcações. Ainda, de vez em quando, é preciso fazer reparos nas estruturas antes tão firmes, mas que se desgastam pouco a pouco e a gente nem vê. Mas, de nada adianta um pequeno barquinho ou um grandioso navio sem saber aonde se quer chegar.

De vez em quando você se sente perdido. Não se preocupe, todos passamos por isso 🙂

Confesso que eu não pensava muito sobre isso até uns meses atrás. Ia navegando ao sabor do vento e tive a sorte de passar por locais interessantes, fazer algumas coisas legais e conhecer muita gente boa. Mas, em determinado momento, me vi perdida em alto mar no meio de uma tempestade pela qual nunca imaginei que fosse passar. Não sabia onde ir, o que fazer.

Mas, hoje, eu sei. Pode parecer conversa de tia avó, mas hoje eu tenho muito claro para mim que nossas ações e relações precisam ter uma “rota”, a qual entendo ser viver de acordo com nossos “valores” e “propósitos”.

Se meu sonho é ser chefe de cozinha, não será útil eu estudar medicina. Se eu quero uma companhia para compartilhar a vida, alguém que não aceita minhas mudanças, desestimula meus desejos e não divide os ônus da rotina não parece ser uma companhia adequada. Se eu tenho como valor a ideia de que as pessoas precisam encontrar satisfação no dia-a-dia – e não apenas sobreviver esperando ansiosamente pelos finais de semana -, alguém que pensa o contrário não vai conseguir compreender as atitudes que eu tomar guiadas por esse valor.

Pode ser que, durante a viagem, eu descubra já não fazer mais sentido para mim continuar indo a determinado lugar, e tudo bem. Isto é, nossos valores e propósitos podem mudar, e tudo bem. Os dos outros também podem mudar, e está tudo bem.

O que não devemos fazer – e foi isso que custei a aprender – é continuar insistindo no que, lá no fundo, sentimos não estar certo. É como se, para fazer a embarcação ficar de pé e avançar alguns metros, precisássemos desesperadamente corrigir algo na estrutura quando, na verdade, o problema era o caminho – ou a falta dele.

Voltando ao divã, após a metáfora da viagem, a terapeuta prosseguiu: a vida, tanto no campo afetivo quanto no profissional, é exatamente assim. Momentos ruins e crises virão, mas somos nós quem escolhemos continuar ou não, e ponderar se vale a pena é um juízo pessoal. Mas a gente só sabe se vale a pena se soubermos bem o que queremos e, principalmente, o que não queremos.

Não há nada de inovador no que ela me disse. Não é um ‘grande segredo revelado, oooh!’. Já li em outros lugares, ouvi de outras pessoas. Mas, infelizmente, durante um tempo considerável eu esqueci disso.

E o ‘esquecimento’ de avaliar o que gostamos ou não, e se estamos ou não de acordo com nossos valores e propósitos  (isto é, se estamos na rota que desejamos, se vivemos como desejamos viver), para, caso necessário, tomar alguma atitude, às vezes tem como preço uma sensação de inadequação constante, com sofrimento excessivo e desnecessário a título de juros. É viver em tempestade quando podemos escolher navegar em mares mais tranquilos.

E é por isto que eu escrevo sobre isso: não só para lembrá-los, mas para eu nunca mais esquecer.